A intensificação do período chuvoso na região Norte, que se estende até o fim de março, historicamente eleva o risco de doenças infecciosas associadas ao contato com água imprópria, especialmente em áreas afetadas por alagações e com saneamento básico insuficiente. Nessas condições, a exposição à água contaminada pode favorecer a transmissão de microrganismos causadores de infecções gastrointestinais.
No Amazonas, foram registrados 301.621 casos de Doenças Diarreicas Agudas (DDA) em 2025, segundo dados da Fundação de Vigilância em Saúde Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP). Embora nem todos os casos estejam diretamente ligados à veiculação hídrica, o aumento da circulação de agentes infecciosos em ambientes insalubres é uma preocupação recorrente durante o período chuvoso. Vale destacar que o número pode estar subestimado, já que o monitoramento ocorre apenas em unidades de saúde sentinelas.
“A maioria dos casos envolve gastroenterites agudas, causadas por vírus, bactérias ou parasitas, com sintomas como diarreia, vômitos e dor abdominal”, explica o infectologista e consultor médico do Sabin Diagnóstico e Saúde, Marcelo Cordeiro. Segundo ele, esses quadros não devem ser subestimados, sobretudo em crianças e idosos.
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Doenças ligadas à água contaminada
Além das DDAs, outras doenças associadas ao contato com água contaminada também exigem atenção nesse período. A leptospirose, por exemplo, registrou 70 casos em 2025 no estado, contra 48 no ano anterior. A infecção é causada pela exposição à urina de roedores geralmente em áreas alagadas, e pode levar a complicações graves se não for diagnosticada precocemente.
O especialista alerta que a infecção pode começar com sintomas semelhantes aos de uma gripe forte, mas evoluir para falência renal, hemorragia pulmonar e, nos casos mais graves, ao óbito. “Muitas vezes, a leptospirose é confundida com hepatite, porque nos quadros mais graves o paciente desenvolve icterícia, que é a coloração amarelada da pele e dos olhos”, afirma Cordeiro.
A hepatite A também exige atenção, especialmente em adultos, nos quais pode causar inflamação hepática intensa e, em casos raros, insuficiência do fígado. A febre tifoide, infecção bacteriana ainda presente em áreas com saneamento precário, provoca febre alta persistente e mal-estar intenso. Em todos os casos, a demora na procura por atendimento aumenta o risco de complicações.
Diagnóstico
O diagnóstico das doenças de transmissão hídrica leva em conta a gravidade e a duração dos sintomas. Em quadros leves e autolimitados, pode ser apenas clínico — feito pelo próprio médico. Em casos persistentes ou com sinais de maior gravidade, como febre alta ou sintomas sistêmicos, exames laboratoriais são fundamentais para confirmar o agente causador da infecção e orientar a melhor conduta médica.
“Os exames de fezes ajudam a identificar parasitas e bactérias específicas, enquanto as sorologias no sangue são essenciais para confirmar doenças como leptospirose e hepatite A”, explica o infectologista. Exames gerais, como hemograma e avaliação da função renal, também são utilizados para medir a gravidade do quadro.
Segundo Cordeiro, identificar corretamente o agente causador evita condutas inadequadas. “Se for um vírus, antibiótico não resolve. Se for uma bactéria agressiva, o antibiótico certo, iniciado na hora certa, pode salvar a vida”, destaca.
O tratamento varia conforme a intensidade do quadro, mas segue um princípio básico: reposição adequada de líquidos. Nos casos leves, a hidratação oral com soro de reidratação e dieta leve é suficiente. Nos quadros graves, quando há vômitos persistentes, sonolência ou redução da urina, a internação e a hidratação venosa podem se tornar caminhos indispensáveis.

