Dois egressos dos cursos de doutorado do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), Patrik Viana e Wilmar Loaiza Cerón, conquistaram a 16ª edição do Prêmio Capes de Tese 2021, com estudos sobre evolução cromossômica em serpentes na Amazônia e o papel dos fenômenos climáticos de baixa frequência na Colômbia e na Bacia do Prata, respectivamente. Ao todo, 49 trabalhos de cada área de avaliação da Fundação foram premiados e outros 92 indicados para Menção Honrosa. A solenidade de entrega aconteceu nesta quinta-feira (09), com transmissão pelo canal da Capes no YouTube.

Ao todo, 49 trabalhos de cada área de avaliação da Fundação foram premiados e outros 92 indicados para Menção Honrosa.

O Prêmio Capes de Teses visa selecionar e premiar as melhores teses defendidas em 2020 nas áreas de avaliação reconhecidas pela Instituição. Entre os 49 escolhidos na primeira etapa, três serão agraciados com o Grande Prêmio, um por cada área de avaliação: Ciências da Vida, Humanidades e Ciências Exatas, Tecnológicas e Multidisciplinar. Em 2019, a egressa do Inpa Carolina Levis, do Programa de Ecologia, conquistou o Grande Prêmio Capes de Tese.

Premiado na Categoria Ciências Biológicas I, o amazonense Patrik Viana é mestre e doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Genética, Conservação e Biologia Evolutiva do Inpa (PPG-GCBEv). Na tese “Karyotype evolution in Boid Snakes: a comparative approach”, o biólogo buscou entender os padrões de diversificação de algumas espécies de serpentes da Amazônia da família Boidae (como as jiboias, sucuris, suaçubóias e jiboias arco-íris), como isso foi mediado pela própria formação da Bacia Amazônica e como ocorreu a evolução dos cromossomos dessas cobras no bioma mais biodiverso do mundo.

O Prêmio Capes de Teses visa selecionar e premiar as melhores teses defendidas em 2020 nas áreas de avaliação reconhecidas pela Instituição.

Viana foi orientado pela pesquisadora do Inpa Eliana Feldberg e contou com bolsa de estudo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam). Apesar da pouca idade, o jovem pesquisador tem uma trajetória acadêmica em diferentes linhas de pesquisa, não se limitando à área da tese, que é citogenética de répteis (campo da biologia evolutiva) e mais especificamente de serpentes. Ele já publicou mais de 40 artigos em periódicos científicos importantes, 36 deles durante os quatro anos de doutorado, com temas sobre biologia evolutiva, história natural e citogenômica de várias espécies de vertebrados Neotropicais.

Segundo Viana, que agora segue na pesquisa como bolsista do Programa de Capacitação Institucional (Inpa/ Capes), o reconhecimento do Prêmio Capes é importante e representativo, por ser a primeira tese envolvendo as temáticas Citogenômica e Herpetofauna Amazônica a ganhar o Prêmio Capes de Tese e por ser a primeira do PPG-GCBEv, bem como a primeira do Inpa na Categoria Ciências Biológicas I.

Apesar da pouca idade, o jovem pesquisador tem uma trajetória acadêmica em diferentes linhas de pesquisa.

“Também é muito representativo para mim como pessoa e como amazonense, pois fui o primeiro de minha família a fazer mestrado e doutorado, e ainda mais com o prêmio Capes de Tese. E como diz a música do boi Caprichoso: ‘posso ser paixão, também tradição, sou inovação… eu sou a cara desse povo… eu, eu sou, eu sou filho dessa terra’, me orgulho muito de ser amazonense e de ter sido reconhecido pelo meu trabalho”, revelou Viana.

A pesquisadora do Inpa Eliana Feldberg enfatiza a importância do trabalho desenvolvido e o papel do laboratório como referência mundial no tema e do Instituto. “Ao longo desses anos de prêmio Capes de Tese, esta foi a primeira vez que uma tese envolvendo Citogenômica recebeu o prêmio. Premiação esta que se torna muito representativa, não somente para o reconhecimento dessa linha de pesquisa, mas também por demonstrar que nossos trabalhos e projetos, na maioria das vezes deixados em segundo plano pelas agências de fomento, possuem grande qualidade e impacto científico”, destacou.

Evolução e diversificação genômica de serpentes

Para fazer o estudo, Viana traçou uma rota genética, por meio de investigação dos cromossomos (XY e ZW) das cobras, animais que possuem determinação sexual genética, ou seja, os genes é que vão cumprir o papel de nascer macho ou fêmea. Com outros répteis isso é diferente. Em algumas espécies de lagartos, tartarugas e crocodilianos é a temperatura de incubação dos ovos que vai determinar o sexo do bicho. 

Segundo Viana, a maioria das serpentes possuem 36 cromossomos, e até recentemente se acreditava que o gene que determinava o sexo estava no genoma feminino (ZW), no cromossomo W. Porém um estudo de 2016 mostrou que há exceções e em algumas espécies, como nas jiboias e pítons, isso ocorria no macho (XY). O trabalho de Viana, então, buscou entender como aconteceu a transição entre os sistemas genéticos XY (macho) e ZW (fêmea) e se tinha similaridades de genes entre eles. Para isso, mapeou vários genes nos cromossomos dos animais. Nos grupos mais recentes (as cobras cipós, jararacas, cascavéis, entre outras) houve perda de genes ao longo do processo evolutivo, mas manteve resquícios de similaridades e de ancestralidade com os grupos mais antigos (jiboias e sucuris, por exemplo). 

“Minha tese conseguiu evidenciar que linhagens antigas dentro da Subordem Serpentes não são tão conservadas do ponto de vista Citogenômico como se imaginava até então, apresentando um sistema XY de cromossomos sexuais e variações nos números de cromossomos (36, 40 e 44). E que mesmo tendo sua origem datando o período Cretáceo [entre 135 e 65 milhões de anos atrás], seus mecanismos de determinação sexual são muito dinâmicos e se estendem ao longo de sua diversificação”, explicou Viana, que fez doutorado no Inpa com período sanduíche na University of Canberra (Austrália), com a coorientação do pesquisador Tariq Ezaz.

Fenômenos climáticos de baixa frequência

O outro trabalho premiado é a tese do geógrafo colombiano Wilmar Céron, doutor pelo Programa de Pós-graduação em Clima e Ambiente (Inpa, programa em associação com a Universidade do Estado do Amazonas – UEA), intitulada “Variações multidecenais da precipitação na Colômbia e na Bacia do Prata e suas relações com os jatos de baixos níveis”, que estuda o papel dos fenômenos climáticos de baixa frequência, como a Oscilação Multidecenal do Atlântico e a Oscilação Decenal do Pacífico, na modulação de evento de precipitação extrema na região. 

Conforme Cerón, a pesquisa poderá ajudar em pesquisas e projetos futuros que buscam o monitoramento e a previsão climática nas regiões estudadas, além da gestão dos recursos hídricos e os riscos hidrometeorológicos associados. Cerón é professor no Departamento de Geografia da Universidad del Valle (Cali, Colômbia), e espera que o trabalho abra espaço para os profissionais de Geografia interessados no desenvolvimento das questões climáticas.

“Ainda estou absorvendo este triunfo coletivo, é um sonho. Depois de todo o esforço, deixando meu país, meus familiares, amigos e minha vida na Colômbia, o Prêmio Capes não é apenas um reconhecimento de um trabalho bem desenvolvido, é um prêmio para a academia e a pesquisa de todos aqueles que participaram deste trabalho”, contou Céron, que participa como colaborador internacional do Grupo de Estudos Meteorológicos e Modelagem na Amazônia (Gemma/UEA) e deseja seguir os estudos de pós-doutorado no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

A tese traz resultados pioneiros sobre variabilidade multidecenal do jato do Choco e seus impactos na precipitação e níveis de rios na Colômbia, além de novas discussões sobre as mudanças e tendências nos extremos de precipitação diária na Bacia do Prata, mostrando uma aplicabilidade prática no contexto de monitoramento climático. Com relação à bacia do Prata, o estudo faz uma atualização de análise espaço-temporal moderna que visa um clima específico nas últimas décadas. No trabalho foi usado um conjunto de dados de grade de alta resolução horizontal, não utilizado anteriormente para esse fim e validado em artigos apresentados na Tese.

“Os resultados deste estudo envolveram a análise de quase uma década de dados de precipitação (pós 2010), que revelou um ponto de ruptura, não discutido anteriormente, e suas possíveis relações com a temperatura da superfície do mar e variações na circulação atmosférica”, explicou Ceron, que foi orientado pela professora da UEA e do quadro permanente do Cliamb, Rita Andreoli e coorientado pelos pesquisadores Mary Toshie Kayano (Inpe) e Rodrigo de Souza (UEA).

No período de 2014 a 2021, Cerón publicou 27 artigos científicos em periódicos nacionais e internacionais. Durante o doutorado, Cerón publicou cinco artigos originais em periódicos classificados nos estratos A do Qualis Capes (2017–2020), e depois três artigos adicionais em 2021 que complementam os resultados da tese, além de publicações que participou como coautor.

Segundo Andreoli, o trabalho reúne a experiência e o conhecimento crítico de vários especialistas que apoiaram e participaram das discussões dos resultados desta tese, profissionais da Colômbia, Brasil, Estados Unidos e Espanha. “Isso foi essencial para a realização de uma tese de doutorado de alta qualidade e rigor científico, contribuindo para uma melhor avaliação do PPG-Cliamb na Capes no contexto do critério internacionalização do programa de pós-graduação”, ressaltou a professora.

Prêmio Capes de Tese

O processo considera a originalidade, a relevância para o desenvolvimento científico, tecnológico, cultural e social do País, a qualidade e quantidade de publicações decorrentes da tese, sua metodologia, redação, estrutura e organização do texto.

Os premiados receberão bolsa de até um ano para estágio pós-doutoral em instituição nacional, além de certificado e medalha. Os orientadores ganharão um prêmio para participação em evento acadêmico-científico no Brasil de até três mil reais, além de certificado, que também será concedido ao coorientador e ao Programa de Pós-Graduação (PPG) em que a tese foi defendida. 

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