Não é novidade que a preservação da Amazônia cada vez ganha mais destaque no mundo todo. Entretanto, ser tema de debate internacional não garante que a Amazônia seja, de fato, compreendida, principalmente para quem não conhece de perto essa região do planeta.

Reunir em uma mesma obra as diversas facetas que compõe a questão da Amazônia foi a motivação da jornalista e historiadora Cristina Monte, que vive em Manaus desde 2005, para escrever e publicar o livro A Amazônia Sustentável e o ecossistema empreendedor .

A obra é resultado de um extenso trabalho da autora que entrevistou, recolheu relatos, depoimentos e análises de uma centena de pessoas. Seu grande diferencial é dar voz e reunir a contribuição desses atores que estão intrinsecamente ligados aos problemas e soluções que permeiam a questão do desenvolvimento sustentável da Amazônia.

Jornalista e historiadora Cristina Monte.

No livro, a autora alinhava de uma maneira coerente e com uma linguagem acessível uma “colcha de retalhos”, que inclui aspectos como tecnologia, pesquisa científica, bioeconomia, educação, recursos humanos, turismo, agroecologia, exportação, propriedade intelectual, agentes de fomento.

Para isso, no livro os “personagens” apresentam sua contribuição em primeira pessoa. São professores, pesquisadores, pequenos, médios e grandes empresários, gestores das esferas públicas, empreendedores digitais, representantes de instituições, associações indígenas e outros agentes. Eles apontam as contradições que envolvem o empreendedorismo no bioma que mantém a maior e mais diversa floresta tropical e bacia hidrográfica do planeta.

O livro abre espaço para que cada um desses agentes apresente aquilo que está sendo feito, e tem muita coisa acontecendo, mas também os entraves e os gargalos para tornar viável e efetiva a sustentabilidade na Amazônia. E, fundamentalmente, eles apresentam iniciativas e ações conjuntas que podem transformar essa realidade.

Há questionamentos profundos sobre a presença de dezenas de órgãos, instituições, centros de pesquisa e fomento tanto em âmbito federal e, no caso do Amazonas, estadual, e a pouca articulação que existe entre eles. Ao contrário da floresta que age como um grande organismo inter-relacionado, as iniciativas para a região aconteceram ao longo dos anos de maneira isolada. O que o livro evidencia é que no momento uma aglutinação de esforços começa a se delinear.

Alguns dos mais prestigiados especialistas no tema Amazônia contribuíram com suas análises contundentes como o climatologista Carlos Nobre, o pesquisador norte-americano, que vive há anos na Amazônia, Philip Martin Fearnside, o historiador Júlio César Schweinckardt, entre dezenas de outros expoentes acadêmicos.

“Longe de esgotar o assunto nessas páginas, a proposta do livro, além de divulgar o ecossistema empreendedor e, nas entrelinhas, as potencialidades viáveis de negócios, é provocar o diálogo, despertar a opinião pública e poder ser um viés na discussão que envolve o futuro da Amazônia”, comenta Cristina Monte.

Articulação e trabalho em rede é o futuro

É quase consenso, entre a centena de participantes da obra, que o futuro da Amazônia exige a convergência do objetivo comum que é a preservação da floresta alinhada à sustentabilidade para garantir qualidade de vida para a população local.

As parcerias e cooperações interinstitucionais e multisetoriais são essenciais para assegurar os investimentos e a continuidade da manutenção de programas e projetos de pesquisa científica e tecnológica, a formação de recursos humanos e o empreendedorismo inovador e sustentável.

Um ecossistema de inovação não surge e também não consegue prosperar sem um alicerce educacional forte. Para isso, há diversas iniciativas em centros de educação e pesquisa voltados para a integração entre ensino e tecnologia. Há muito ainda a ser feito. Mas, importantes passos já começaram para formação dos futuros agentes locais. “É preciso integrar nessa jornada as comunidades tradicionais, valorizar os saberes locais, a diversidade cultural, a riqueza gastronômica. É soma de esforços de quem vive, pesquisa, trabalha, conhece e reconhece os imensos desafios, que podem construir junto soluções que respeitem a singularidade da Amazônia e dos seus habitantes”, explica Cristina Monte.

A voz feminina na Amazônia

Um dos diferenciais do livro é a presença feminina, pois entre os 100 participantes, 39 são mulheres. A autora conseguiu atingir um difícil balanceamento, considerando que a obra trata principalmente de tecnologia, inovação e empreendedorismo. Há representatividade das mulheres em todos os segmentos abordados, destacando o trabalho de pesquisadoras, cientistas, gestoras de órgãos e instituições público-privadas, professoras, empreendedoras, lideranças comunitárias.

O protagonismo feminino é, inclusive, tema de algumas partes da obra como a que aborda a equidade de gênero no mercado da tecnologia, a rede de empreendedorismo feminino e a liderança em associações e no cooperativismo.

A contribuição da chamada nova economia

Manaus tem despontado como um ambiente promissor para o ecossistema da inovação. O livro destaca exemplos promissores entre govtechs, healthtechs, e startups que estão trazendo novas soluções em questões como energia, turismo, alimentos, desenvolvimento de games e muito outros.

Diversas iniciativas estão agora buscando aproximar esses projetos ocorriam de forma isolada. A intenção é fortalecer esse ecossistema que pode contribuir muito com o futuro da região, conectando empresas interessadas em apoiar a inovação com institutos de pesquisa e desenvolvimento, empreendedores, startups, cooperativas e associações comunitárias.

Ecoturismo como vetor do desenvolvimento sustentável

O ecoturismo é apontado vários em depoimentos no livro como um dos caminhos mais viáveis para aliar a preservação, a economia sustentável, o conhecimento e a cultura dos povos locais. Entre as diversas iniciativas em andamento, um exemplo é a startup Fisggar, primeira plataforma local de conexão web voltada à pesca esportiva.

Os entrevistados apontam também os problemas a serem superados e um dos maiores gargalos é a falta de infraestrutura para o turismo verde amazônico.

Um exemplo marcante é de Roberto Garrido, membro de uma família que atuou por gerações na extração de madeira. Após compreender que o valor da floresta está em mantê-la em pé, mudou de ramo, migrando para o ecoturismo. “É preciso ressaltar que o desmatamento somente acontece quando há incentivo de fatores externos, como de grandes empresas ou grandes figuras que querem a madeira, porque o caboclo e o indígena, em sua maioria, não desmatam, porque todo o ecossistema da floresta é importante para a sua sobrevivência, para a sua comunidade”, afirma.

Biotecnologia e bioeconomia

“A Amazônia é o coração biológico do planeta Terra”. A frase é do climatologista Carlos Nobre, um dos entrevistados no livro.

Dois temas recorrentes no livro são a biotecnologia e a bioeconomia. O patrimônio genético, os recursos vegetais e bioativos ainda pouco conhecidos podem se revelar insumos valiosos para as indústrias química, farmacêutica, cosmética e alimentícia. Do manejo integrado e sustentável da floresta resultam óleos, extratos, fibras, sementes, ativos microbiológicos que são base para medicamentos, cosméticos, bioinseticidas, biomateriais, corantes naturais, aromatizantes, entre muitos outros.

Há diversas linhas de pesquisa, projetos e ações nessa direção que podem agregar ainda mais valor para conservar a floresta em pé. Um exemplo considerado bem-sucedido é a empresa Natura que atua há décadas na Amazônia. Iguatemi Melo Costa, gerente científico da empresa destaca: “o ponto mais relevante é debater a Amazônia com a Amazônia. A voz dos atores regionais é indispensável para a construção de um futuro benéfico para todos nós”.

De acordo com o professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Augusto César Barreto Rocha, para avançar no tema da biotecnologia é preciso definir como queremos usar os recursos da floresta, simplesmente como fornecedora de matéria-prima ou utilizar sua riqueza invisível para desenvolver processos e produtos industriais diferenciados de alto valor agregado.

Composição do livro

O livro A Amazônia sustentável e o ecossistema empreendedor está organizado em 17 capítulos que tratam de temas como empreendedorismo, inovação, bioeconomia, educação, cultura, ecoturismo, articulação e trabalho em rede, o papel dos agentes públicos e da indústria.

A obra pode ser encontrada em uma edição especial e limitada de lançamento em inglês e português e outra somente em português com 216 páginas. A pré-venda já está disponível na plataforma Amazônia Empreendedora . Nessa plataforma também é possível encontrar alguns dos cases que são retratados no livro.

O lançamento acontece em dois eventos simultâneos. Na 20ª edição da Bienal do Livro, que acontece no Rio de Janeiro de 03 a 12 de dezembro, no pavilhão de exposições do Riocentro. Também terá um lançamento regional da na 3ª edição da Feira do Polo Digital de Manaus, que acontece entre os dias 9 e 11 de dezembro.

A publicação da obra foi viabilizada com o apoio de empresas e instituições como Instituto de Desenvolvimento Tecnológico (INDT), Fundação Paulo Feitoza (FPF Tech), Fundação Muraki, Centro de Ensino Literatus, Instituto CESAR, Centro Internacional de Tecnologia de Software (CITS), Grupo Dunorte (Atack Atacarejo), Rymo da Amazônia, TOTVS da Amazônia, Grupo Bemol, Instituto de Desenvolvimento da Amazônia (Idesam) e Sistema Hapvida .

A autora

A história da Cristina com a Amazônia foi construída em capítulos, assim como seu livro. A relação da jornalista, que é paulistana, com o “universo” amazônico começa em 1998 quando ela morou em Manaus pela primeira vez. Cristina conta no livro que, ao chegar sentiu como se estivesse em outro país, tamanha a diferença que percebeu entre esses dois mundos. “Foi um mergulho intenso nos costumes, cultura popular, linguagem e culinária peculiares do Amazonas e tudo aquilo transformou a minha vida de um modo que eu não imaginava”, afirma.

Mais de dois anos depois ao retornar a São Paulo sentia que já não era mesma, tinha sido transformada pela força daquele lugar especial e vibrante. Em 2005 retornou para a capital amazonense de onde nunca mais saiu.

Na cidade foi editora de uma revista técnico-científica em uma fundação ligada à ciência e tecnologia (Fucapi). Estudou história na Universidade Federal do Amazonas e trabalhou como consultora de marketing para o Instituto de Desenvolvimento Tecnológico e atuou como diretora de Comunicação e Marketing para a Associação Brasileira de Recursos Humanos do Amazonas.

Desde 2018 é colunista de negócio do Jornal do Commercio. Apresentou programa TV relacionado ao tema do empreendedorismo e da tecnologia na Amazônia e criou um canal no Youtube. Fundou uma agência de comunicação e atualmente trabalha principalmente com assessoria de imprensa.

Como uma profissional que sempre esteve envolvida com os temas do desenvolvimento tecnológico e empreendedorismo na Amazônia, Cristina se envolveu como voluntária na organização do evento Feira do Polo Digital, que teve a primeira edição em 2018. A feira reuniu e conectou muitas pessoas, iniciativas e projetos envolvidos no ecossistema digital amazônico.

Da edição de 2019 do evento, que teve como tema Manaus Inteligente, veio a inspiração para a criação do livro. “Ao atuar nesse ambiente integrador, compreendi que – muito além do evento – o ecossistema fortalecido poderia, com o tempo, representar muitas oportunidades de negócios para o Amazonas. Poderia, inclusive, ser um embrião de uma nova matriz econômica”, afirma Cristina.

A partir desse plano, Cristina parte a missão de contactar pessoas que pudessem traduzir as múltiplas vertentes do empreendedorismo sustentável na Amazônia. A autora conta que inicialmente pretendia entrevistar cerca de 25 pessoas. Mas, ao mergulhar cada vez mais no tema quando percebeu já tinha chegado a uma centena.

Com a pandemia, no começo de 2020, Cristina mergulhou no trabalho de organizar todo o material coletado e transformá-lo em um livro que reunisse uma centena de entrevistas, depoimentos, além de dezenas de análises, pesquisas e dados.

Ao concluir esse trabalho veio outro desafio: publicar sua obra. Depois de ouvir alguns não ou talvez de editoras, o espírito empreendedor falou mais alto e Cristina assumiu o desafio de editar e publicar seu livro. Ela também buscou apoio de empresas e instituições para essa empreitada.

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